Ativo 1


Primavera de 2012.

Primavera de 2012. Diante do A3, impresso com várias possibilidades de logotipos e nomes, as expressões dos sócios não eram de satisfação. Indicavam que a solução ainda estava distante daquelas formas esboçadas semanas antes. O café chegou e a decisão seria, novamente, postergada. Assim sendo, não restava outra alternativa a não ser apreciar o cafezinho tirado na hora. Lá fora, o vento balançava a copa das árvores e os carros passavam na rodovia. Era um dia quente e seco, como é normal serem os dias em Lins nesta época. Prof. João Artur provou o café, conversou amenidades e decidiu caminhar pelo recinto. Em seguida, saiu para contemplar os arredores. Aquele restaurante no qual estavam era bom para reuniões. Estabelecimento de estrada, amplo e tranquilo. Costumavam, além de tudo, servir um típico café road. Complementando o design rústico esculpido em madeira, havia o verde da vegetação, a beleza do orquidário e o colorido das flores da estação. Pensativo, Prof. João Artur caminhava enquanto o sócio pagava a conta. Foi quando se deparou com com uma planta de constituição peculiar, da qual se desprendiam pequenos guarda-chuvas de algodão. No momento, era o que parecia. Estava lá, à frente, mas Prof. João Artur não sabia o nome daquele gênero botânico, embora tenha o visto inúmeras vezes antes. Aquilo foi uma epifania. Pegou uma pela caule e soprou, observando os guarda-chuvas serem levados pela brisa, pairando no ar. Aquela planta era autossuficiente e espalhava as sementes de forma criativa. Afinal, o que uma empresa poderia desejar? Ser independente, propagar suas ideias e serviços de forma criativa, ter escopo, apresentar design de pensamento moderno, ajustado aos tempos atuais, e, por fim, estar pronta para semear inovação.

Momentos antes no tempo e no espaço, tomando café, Prof. João Artur e o irmão sócio não eram mais que um apanhado de ideias impresso em A3. Eram especulações e nada mais. Após Prof. João Artur contemplar a Taraxacum officinale, surgiu a Dente-de-Leão. Dali pra frente eram uma empresa.

E, assim sendo, o logotipo foi fácil de criar: um desenho estilizado combinando o guarda-chuva que caracteriza a planta, a haste flutuante e uma elipse em forma de lua crescente ou lua nova. A lua simboliza  as fases da vida e marca os ciclos de crescimento. É um astro que cresce, diminui, dasaparece e cresce novamente. A união destes dois elementos iconográficos significa o nascimento de uma empresa nova, com ânimo, frescor e perspectiva diferente. Tem valor simbólico que expressa a realidade de um empreendimento que quer disseminar novidades, mudanças e renovações.

Ali, ao sabor do café, aconteceu a magia da ideia.

No entanto, é necessário retroceder um pouco mais para entender que, às vezes, a gênese de uma empresa se dá muito antes.

Dez anos antes. Dezembro de 2002. Após formação universitária, Prof. João Artur garantiu espaço no mercado de trabalho e também partiu para consultoria informal. Com o conhecimento adquirido no curso de Administração e a experiência de trabalho anteriores, passou a atender empresas em suas necessidades mercadológicas, oferecendo planos de atuação e estratégias de marketing. Mas, deve-se ressaltar,  esta prestação de serviço na área era bastante despojada. A despeito da simplicidade do modus operandi, os clientes eram atendidos de forma profissional. Nessa fase inicial, o aprendizado foi grande, pois exigia criatividade para resolver os problemas que surgiam. Ainda era um jovem administrador, buscando a compreensão de si mesmo e do mercado em transformação. Esta era a verdade daquela época e continua sendo a verdade imutável: mudanças constantes num ritmo vertiginoso. A internet ganhava mais força e inéditas formas de se pensar surgiam. A tecnologia gerava nichos de trabalho diferentes, campos de atuação nunca vistos antes e novíssimas formas de se prestar serviços. O mundo virtual mesclava-se com a realidade. Com a advento das redes sociais e dos aplicativos, outras formas de interação apareceram e, com elas, novos parâmetros de consumo, de propaganda, de relacionamento entre cliente e empresa.

Obviamente, a confluência de tudo isso se daria anos mais tarde.

Em 2003, o mundo tecnológico avançava e os sócios/irmãos começaram as atividades em serigrafia, ramo que sempre gostaram. Com modernidade ou sem ela,  as pessoas precisavam de camisetas estampadas. Serigrafia comercial é algo que, provavelmente, existirá por muito tempo. É um campo interessante, que usa técnicas artísticas e inovações em design para a obtenção de resultados atraentes. Prof. João Artur sempre enxergou a serigrafia, comercial ou não, como algo especial, carregado de simbologia. E é uma arte que exige total atenção. Muitos artistas consagrados, como Andy Warhol, Roy Lichtenstein e James Albert Rosenquist usaram a serigrafia como forma de expressão. Para os sócios, o silk screen era paixão de infância, ligada intimamente com o apreço pelas formas de arte, histórias em quadrinhos, pinturas e outras manifestações pictóricas.

Não investiram nada no ramo serigráfico, no sentido de alocar capital de giro. O investimento se deu a posteriori. Primeiro, fecharam um serviço de vulto. Depois, compraram o maquinário e tudo o que era preciso para atuar na área. Para a primeira encomenda, contrataram um profissional freelancer que já havia trabalhado numa grande empresa de serigrafia. Fizeram esta incumbência inicial juntos. Enquanto trabalhavam para finalizar o pedido, aprendiam o ofício. No entanto, vale ressaltar, sabiam todas as etapas e como funcionavam os processos através de sólido conhecimento teórico. A consolidação deste conhecimento se deu na prática. A partir de então, foram várias encomendas. Passaram noites ao som das rádios regionais, estampando camisetas, preocupados com o prazo. Foi um tempo no qual aperfeiçoaram as noções de design, de cores, de harmonização e criação de logotipos, tipografia entre outros aspectos. Após um tempo atuando, se depararam com dificuldades. Não existe mercado mais instável e com prazos mais apertados que o mercado de serigrafia. Com raras exceções, os pedidos eram sempre para ontem. Geralmente, estava tudo atrasado. Dependia-se, sobremaneira, da confecção das camisetas. E não era uma impressão rápida. Qualquer atraso complicava todo o cronograma. Contudo, aprenderam a lidar com estas dificuldades, com as adversidades provenientes destes atrasos. Lidaram também, pela primeira vez, com a inadimplência de clientes. Tudo isso tornava o trabalho mais complicado, pois existia uma cadeia de pagamento e, em alguns casos, pagava-se antes. Qualquer desfalque prejudicava a lucratividade. De qualquer forma, conseguiram se sustentar como empresa.

Foi quando um dos sócios se casou e mudou-se para outro estado. Para Prof. João Artur, que tinha emprego fixo, lecionava e também prestava serviços nas áreas de consultoria, ficou difícil coordenar também o empreendimento serigráfico. Não viu outra alternativa a não ser encerrar as atividades. Vendeu os equipamentos e também o know-how para outra empresa. Desta forma, terminava uma etapa.

Em 2004/2005 começava outra história, outro ciclo. É interessante notar que a vida se desenvolve em ciclos, períodos de altos e baixos, coisas novas suplantando as antigas. O negócio de serigrafia precisou ser suspenso. Começou, então, uma nova fase de consultoria, mais abrangente, mais completa e duradoura. Através da internet foi possível um intercâmbio de ideias entre os sócios, colaboração e trabalho. Este ciclo durou um tempo considerável, com muitos projetos, textos, designs e experimentações. Com alguns reveses, o trabalho de consultoria prosseguiu ao mesmo tempo em que a docência ficava mais forte. O investimento na carreira acadêmica foi o passo mais óbvio deste período. Mas, a maturação e a atuação no campo da consultoria e marketing nunca diminuíram.

Em 2005, o sócio e irmão voltou para São Paulo, fixando-se na capital. As parcerias continuaram. Três anos depois, Prof. João Artur iniciou o mestrado em São Paulo. Novas oportunidades surgiram. Foi uma época de grande efervescência, na qual escreveu artigos, participou de grupos de estudos e conheceu em detalhes as diversas faces da capital paulista. O mestrado ofereceu uma grande oportunidade de crescimento, ampliação do entendimento e proporcionou novos contatos. No final de 2010 defendeu com sucesso a dissertação de mestrado e se tornou mestre em comunicação. Em 2012, a vontade (e também a necessidade mercadológica) de se abrir uma empresa voltou. No início, era para ser uma empresa dedicada à editoração de livros. Este conceito cresceu e as ideias surgiram para que fosse algo mais amplo. Procuraram o SEBRAE de São Paulo e o orientador disse que não faziam parte daquele perfil de orientandos, que estavam um passo à frente. Mesmo assim, deu dicas valiosas sobre frentes de atuação, que englobaria: cursos, palestras, editoração, design, entre outros. Então, com tudo mais ou menos delineado, faltava um nome. Esboçaram algumas coisas. Fizeram alguns layouts e imprimiram em A3.

Foi quando decidiram se reunir para tomar café e discutir os conceitos. Isso foi na primavera de 2012. O resto, como dizem, foi a própria história se construindo.

O marketing, nestas últimas décadas, evoluiu para algo diferente. O conceito de empresa mudou e de prestação de serviço também. Há uma flexibilidade e adaptabilidade para os mais diversos tipos de necessidades. Cada cliente é um parceiro e o que importa é o crescimento de ambas as partes. O design mudou, a administração mudou e os conceitos de sociedade mudaram. Contudo, algo permanece igual: a necessidade por qualidade. A Dente-de-Leão se adapta aos tempos, sempre semeando ideias novas, conceitos diferentes e sempre oferecendo soluções inteligentes.

Ademais, ter uma empresa aberta e funcional no Brasil é um exercício constante de resistência. Burocracia, impostos, dificuldades e instabilidades econômicas frequentes. Para se ter uma empresa aberta é preciso ter um pouco de loucura, muita criatividade e jogo de cintura. É imperativo gostar daquilo que se faz. Ter planejamento e uma equipe sintonizada.

Afinal, o que deseja uma empresa? Ser como o Taraxacum officinale: autossuficiente, espalhando as sementes de forma criativa. Ter solidez, escopo e orientação para a modernidade. Inovar, pensar junto e pensar para o mundo.

Professor João Artur Izzo